Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Semeando tempestades – III: América Latina

Martinho Júnior

16 de Outubro de 2009

 

Enquanto África, conforme o lastro inqualificável da Somália, continua a ser em muitos aspectos, como teve um dia a coragem de sintetizar António Agostinho Neto, «aquele continente inerte onde cada abutre vem depenicar o seu pedaço», eis que a América Latina se une e levanta, num esforço singular contra uma lógica avassaladora secularmente imposta que conduz à morte antecipada de centenas de milhões de seres humanos e tem causado profundos desequilíbrios à pequena nave que garante a vida, a Terra [1].

Uma das personalidades internacionais que melhor sintetiza o esforço latino-americano no sentido dum universo emancipador de tendência multipolar, é o filósofo norte americano Noam Chomski, que numa entrevista recente ao La Jornada do México, refere:

«A América Latina é hoje o lugar mais estimulante do mundo. Pela primeira vez em 500 anos há movimentos para uma verdadeira independência e separação do mundo imperial; estão a integrar-se países que historicamente têm estado separados. Esta integração é um pré-requisito para a independência. Historicamente, os Estados Unidos derrocaram um governo após outro; agora já não podem fazê-lo.» [2]

Os estados latino-americanos que estão na linha da frente do aprofundamento democrático mediante um processo de revolução institucionalizada compõem a ALBA, mas contagiam pela via da integração económica no espaço geoestratégico do sul, outros estados como o emergente Brasil, a Argentina, o indeciso Chile que dentro em breve vai a eleições…

O sentido filosófico da resposta latino-americana roda em torno da vida, da paz com qualidade social, do aprofundamento da democracia, da solidariedade, da educação, da saúde, da diminuição dos desequilíbrios, tirando partido de forma inteligente e criativa do elevado grau de insegurança que há 200 anos nutre o domínio das oligarquias egoístas que perfilham a lógica capitalista, oligarquias essas “emparceiradas” com os omnipresentes interesses consubstanciados na política imperialista dos Estados Unidos, dos aliados ocidentais e da presença das corporações multinacionais e de instituições como o Banco Mundial, o FMI e a OMC, que constituem a essência da “intervenção”.

A resposta é uma tentativa de socialismo que bebe das antigas raízes antropológicas e históricas do continente, quanto a partir do fresco húmus neoliberal e social-liberal, conforme outro filósofo norte-americano atento.

James Petras, em “América Latina: o fim do liberalismo social”, conclui assim a propósito:

«A actual recessão mundial e a potencial recuperação de alguns países revela todas as fraquezas das tradicionais doutrinas das vantagens comparativas, o “mercado de exportação”, o livre comércio. Em nenhum outro lugar isto é mais evidente do que na experiência recente da América Latina.

Apesar de recentes levantamentos populares e da ascensão de regimes de centro-esquerda na maior parte dos países na região, as estruturas económicas, estratégias e políticas prosseguidas seguem as pisadas das suas antecessoras, particularmente em relação às práticas económicas com o estrangeiro.

Influenciada pela procura acentuada e a subida dos preços das commodities, especialmente produtos agro-minerais e de energia, os regimes latino-americanos recuaram em relação a quaisquer mudanças em várias áreas cruciais e adaptaram-se às políticas e legados económicos dos seus antecessores neoliberais. Em consequência, com a vasta recessão mundial principiada em 2008, eles sofreram um declínio económico agudo com graves consequências sociais.

As crises sócio-económicas resultantes proporcionam lições importantes e reforçam a noção de que mudanças estruturais profundas no investimento, comércio, propriedade de sectores económicos estratégicos são essenciais para o crescimento sustentado e equitativo».


Para ele, em conclusão, não haverá outra solução teórica e prática senão seguir a via alternativa dum novo modelo de socialismo identificado com a vida:

«No reconhecimento das vulnerabilidades e da volatilidade jaz o fundamento para uma transformação estrutural completa com base em mudanças na posse da terra, nos padrões comerciais e na propriedade de indústrias estratégicas.

A crise actual desacreditou tanto as receitas neoliberais como sociais-liberais e abre a porta para um novo pensamento que liga despesas sociais com propriedade social».
[3]

A América Latina rebelde, abandonando as armas mas apegando-se à paz que advém da coerência lógica da própria vida, “inaugurou” o conceito alargado que as novas “indústrias da paz” abarcam, um conceito que nunca as oligarquias envoltas no seu labirinto puseram alguma vez em prática: pela primeira vez na sua história, sucedem-se as nações livres do analfabetismo, as nações que de forma abrangente garantem cada vez mais saúde para todos, as nações que encetam a integração viabilizando as trocas comerciais em benefício exclusivo do sul, com uma quota parte de integração e de solidariedade nunca antes experimentada com tanta amplitude.

As oligarquias, por exemplo, alimentaram sempre a ideia de que era o turismo a “indústria da paz”, privilegiando como é óbvio as elites, as únicas que têm acesso à viagem dentro ou fora das fronteiras, em função da sua capacidade de aquisição.

Essa mentira, essa manipulação, essa ambiguidade da “indústria da paz” caiu por terra, como estão a cair muitos conceitos da lógica capitalista que não garantem mais viabilidade democrática, nem sustentabilidade sócio-política-económica.

“Indústrias de paz” como a alfabetização alargada, a saúde social, a batalha contra a cegueira, o petróleo barato e acessível a nações com parcos recursos, são ética, moral e economicamente incomparáveis se comparadas com os ridículos resultados do turismo dos privilegiados.

A febre de alfabetização correu Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua, Argentina, e outras nações, como El Salvador, aprestam-se para enfrentar o desafio.

A Venezuela multiplica as “Misión Barrio Adentro”, implantando um novo sistema de saúde e dando o exemplo.

As “Operación Milagro”, que preenchem o combate às enfermidades dos olhos humanos que dramaticamente se tornaram comuns nas elevadas altitudes dos Andes, multiplicam-se.

As nações e os estados latino-americanos que se abrem ao aprofundamento da democracia utilizando a trilha das eleições propiciadas pela oportunidade da “representatividade”, rompem pouco a pouco com a viabilidade das oligarquias no exercício do poder, isolando-as nos seus interesses mesquinhos e remetendo-as à oposição irremediável, ainda que em muitos casos feroz, conforme o caso paradigmático das Honduras [4].

 

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Fonte: Informação Alternativa

publicado por Rojo às 10:03
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