Domingo, 24 de Janeiro de 2010

Porque os EUA devem milhares de milhões ao Haiti

Por Bill Quigley

 

Porque é que os EUA devem milhares de milhões ao Haiti? Colin Powell, antigo secretário de Estado dos EUA, definiu a sua política externa como a "regra do Pottery Barn". Ou seja – "quem parte, paga".

Durante 200 anos os EUA fizeram tudo para "partir" o Haiti. Estamos em dívida para com o Haiti. Não é uma questão de caridade. Estamos em dívida para com o Haiti por uma questão de justiça. Indemnizações. E não apenas os 100 milhões de dólares prometidos pelo presidente Obama – isso são trocos. Os EUA devem ao Haiti milhares de milhões – com Ms maiúsculos.

 

(...)

 

 

Eis a história mais resumida de algumas das principais tentativas dos EUA para dar cabo do Haiti.

Em 1804, quando o Haiti conquistou a sua independência da França na primeira revolução de escravos bem sucedida a nível mundial, os Estados Unidos recusaram-se a reconhecer o país. Os EUA continuaram a recusar o reconhecimento do Haiti durante mais 60 anos. Porquê? Porque os EUA continuavam a escravizar milhões dos seus próprios cidadãos e receavam que o reconhecimento do Haiti encorajasse a revolução dos escravos nos EUA.

Depois da revolução de 1804, o Haiti foi sujeito a um debilitante embargo económico pela França e pelos EUA. As sanções americanas duraram até 1863. A França acabou por usar o seu poderio militar para forçar o Haiti a pagar indemnizações pelos escravos que foram libertados. As indemnizações foram de 150 milhões de francos. (A França vendeu todo o território da Louisiana aos EUA por 80 milhões de francos!).

O Haiti foi forçado a pedir dinheiro emprestado aos bancos da França e dos EUA para pagar as indemnizações a França. Por fim, em 1947, foi finalmente feito um enorme empréstimo aos EUA para liquidar a dívida aos franceses. Qual o valor actual do dinheiro que o Haiti foi forçado a pagar aos bancos franceses e americanos? Mais de 20 mil milhões de dólares – com Ms maiúsculos.

Os EUA ocuparam e governaram o Haiti pela força de 1915 a 1934. O presidente Woodrow Wilson enviou tropas para o invadir em 1915. As revoltas dos haitianos foram dominadas pelos militares americanos – que mataram mais de 2000 num só confronto. Durante os dezanove anos que se seguiram, os EUA controlaram as alfândegas no Haiti, cobraram impostos e dirigiram muitas instituições governamentais. Quantos milhares de milhões foram aspirados pelos EUA durante esses 19 anos?

De 1957 a 1986, o Haiti foi forçado a viver sob as ditaduras de "Papa Doc" e de "Baby Doc" Duvalier, apoiados pelos americanos. Os EUA apoiaram esses ditadores económica e militarmente porque eles faziam o que os EUA queriam e eram politicamente "anti-comunistas" – ou seja, como se traduz hoje, eram contra os direitos humanos das suas populações. Duvalier roubou milhões ao Haiti e contraiu uma dívida de centenas de milhões que o Haiti ainda continua a dever. Dez mil haitianos perderam a vida. As estimativas revelam que o Haiti tem uma dívida externa de 1,3 mil milhões de dólares e que 40% dessa dívida foi contraída pelos Duvaliers apoiados pelos EUA.

Há trinta anos o Haiti não importava arroz. Hoje o Haiti importa quase todo o seu arroz. Embora o Haiti fosse a capital do açúcar das Caraíbas, hoje também importa açúcar. Porquê? Os EUA e as instituições financeiras mundiais dominadas pelos EUA – o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial – forçaram o Haiti a abrir os seus mercados ao mundo. Depois os EUA despejaram no Haiti milhões de toneladas de arroz e açúcar subsidiados pelos EUA – arruinando os seus agricultores e arruinando a agricultura haitiana. Ao arruinar a agricultura haitiana, os EUA forçaram o Haiti a passar a ser o terceiro maior mercado mundial do arroz americano. Foi bom para os lavradores americanos, mau para o Haiti.

Em 2002, os EUA suspenderam centenas de milhões de dólares de empréstimos ao Haiti que deviam ser utilizados, entre outros projectos públicos, como a educação, para estradas. São essas as mesmas estradas que as equipas de salvamento têm tido tanta dificuldade em percorrer actualmente!

Em 2004, os EUA voltaram a destruir a democracia no Haiti quando apoiaram o golpe contra o presidente eleito do Haiti, Aristides.

O Haiti até é usado para recreação sexual tal como no tempo das antigas plantações. Analisem cuidadosamente as notícias e encontrarão inúmeras histórias de abuso de menores por missionários, soldados e trabalhadores caritativos. Mais ainda, há as frequentes férias sexuais que americanos e outros estrangeiros passam no Haiti. Quanto se deve por isso? Qual o valor que lhe atribuiriam se fossem os vossos irmãos e irmãs?

 

(...)

 

 

Fonte: Resisitir.info

 

Lincoln Gordon e a origem dos "desaparecidos"

A elite americana

por William Blum [*]

 

Lincoln Gordon morreu há poucas semanas com a idade de 96 anos. Licenciara-se summa cum laude em Harvard aos 19 anos, doutorara-se em Oxford como bolsista Rhodes, publicara o seu primeiro livro aos 22 anos, com dúzias mais a seguir sobre governo, economia e política externa na Europa e América Latina. Entrou [como professor] na Faculdade de Harvard aos 23 anos. O dr. Gordon foi executivo no Gabinete de Produção de Guerra durante a II Guerra Mundial, administrador de topo dos programas do Plano Marshall na Europa do pós guerra, embaixador no Brasil, teve outras altas posições no Departamento de Estado e na Casa Branca, foi investigador no Centro Internacional Woodrow Wilson para Académicos, economista na Brookings Institution, presidente da Johns Hopkins University. O presidente Lyndon B. Johnson louvou o serviço diplomático de Gordon como "uma rara combinação de experiência, idealismo e julgamento prático".

Está a ver o quadro? O rapaz maravilha, intelectual brilhante, líder notável de homens, patriota americano destacado.

Abraham Lincoln Gordon foi também o homem de Washington no Brasil, e muito activo, como director do golpe militar de 1964 que derrubou o governo moderadamente de esquerda de João Goulart e condenou o povo brasileiro a mais de 20 anos de uma ditadura terrivelmente brutal.

Os que fazem campanha pelos direitos humanos sustentam há muito que o regime militar do Brasil originou a ideia dos "desaparecidos" e exportou métodos de tortura através da América Latina. Em 2007, o governo brasileiro publicou um livro de 500 páginas, "O direito à memória e à verdade", no qual esboça a tortura sistemática, violação e desaparecimento de aproximadamente 500 activistas de esquerda e inclui fotos de cadáveres e vítimas de tortura. Actualmente, o presidente brasileiro Luís Inácio Lula da Silva está a propor uma comissão para investigar alegações de tortura pelos militares durante a ditadura de 1964-1985. (Quando será que os Estados Unidos criam uma comissão para investigar a sua própria tortura?)

Num telegrama para Washington após o golpe, Gordon declarava — numa observação que dificilmente superaria as de John Foster Dulles — que sem aquele golpe poderia ter havido uma "perda total para o ocidente de todas as repúblicas sul americanas". (O golpe foi realmente o princípio de uma série de golpes anti-comunistas fascistóides que aprisionou a metade sul da América do Sul em décadas de um longo pesadelo, culminando na "Operação Condor", no qual várias ditaduras, ajudadas pela CIA, cooperaram na captura e morte de esquerdistas.)

Gordon posteriormente testemunhou numa audiência perante Congresso e, negando completamente qualquer conexão com o golpe no Brasil [1] , declarou que este fora "a mais decisiva vitória isolada da liberdade nos meados do século XX".

Ouçam uma conversação telefónica entre o presidente Johnson e o secretário assistente de Estado para Assuntos Inter-Americanos, Thomas Mann, em 3 de Abril de 1964, dois dias após o golpe:

MANN: Espero que esteja tão feliz como eu acerca do Brasil.

LBJ: Estou.

MANN: Penso que é a coisa mais importante acontecida no hemisfério nos últimos três anos.

LBJ: Espero que eles nos dêem algum crédito ao invés do inferno.

(Michael Beschloss, Taking Charge: The Johnson White House Tapes, 1963-1964 (New York, 1997), p.306. Todas as outras fontes desta secção sobre Gordon podem ser encontradas em: Washington Post, 22/Dezembro/2009, obituário; The Guardian (Londres), 31/Agosto/2007; William Blum, "Killing Hope", chapter 27.)

Assim, da próxima vez que se encontrar com um rapaz maravilha de Harvard, tente manter a sua adulação não importa que posto o homem tenha, mesmo — oh, apenas escolhendo uma posição aleatoriamente — a presidência dos Estados Unidos. Mantenha os olhos centrados não sobre estes "liberais" ... "melhores e mais brilhantes" que vêm e vão, mas sobre a política externa dos EUA que permanece a mesma década após década. Há dúzias de Brasis e de Lincoln Gordons no passado dos EUA. No seu presente. No seu futuro. Eles são o equivalente diplomático dos sujeitos que dirigiam a Enron, a AIG e a Goldman Sachs.

Naturalmente, nem todos os nossos responsáveis pela política externa são como este. Alguns são piores.

E recorde as palavras do espião condenado Alger Hiss: A prisão é "um bom correctivo para três anos de Harvard".

[1] O que é uma mentira diplomática descarada.   O golpe de 1964 no Brasil foi preparado, coordenado e apoiado pela Embaixada dos EUA no Rio de Janeiro sob o comando do embaixador Lincoln Gordon.   A preparação psicológica e política para o golpe foi feita por entidades criadas pela CIA, como o IPES e o IBAD.   A coordenação foi feita pelo general da CIA Vernon Walters em conjunto com o general Castelo Branco (o primeiro presidente pós golpe).   Quanto ao apoio militar, o sr. Lincoln Gordon até mandou vir uma esquadra da U.S.Navy pronta para intervir caso houvesse resistência significativa aos golpistas.   Preparado durante mais de dois anos, o golpe consumou-se 18 dias depois de o presidente João Goulart anunciar algumas pequenas restrições à remessa de lucros das transnacionais que operavam no Brasil e de uma tímida lei da Reforma Agrária que previa a expropriação de terras (com indemnização aos proprietários) numa faixa de terra ao longo das rodovias federais.(NR)

 

[*] Autor de numerosas obras, como La CIA Una Historia Negra/ Killing Hope: Intervenciones de La CIA desde la segunda guerra mundial/ U.S. Military and CIA Interventions Since World War II e Les Guerres scélérates . BBlum6@aol.com

O original encontra-se em http://www.counterpunch.org/blum01072010.html


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

publicado por Rojo às 20:47
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