Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2010

A guerra de quarta geração na Venezuela

RCTV, Human Rights Watch e o movimento estudantil esquálido
 

1. A última semana de Janeiro de 2010 representou uma nova batalha mediática encabeçada pelos sectores mais conservadores da sociedade venezuelana contra o governo de Hugo Rafael Chávez Frías. Não era para menos tendo em conta as declarações do Comandante no seu discurso de 23 de Janeiro na Praça Oleary de Caracas. Ali, comemorando os 52 anos da queda da ditadura de Marcos Pérez Jiménez, Chávez fez um repto a essa oposição herdeira do pacto puntofijista que durante 40 anos definiu os destinos da Venezuela, para que juntasse as assinaturas para convocar um referendo revogatório ao seu mandato. Depois, com a claridade que o caracteriza e analisando o panorama pós vitória do fascista Pinhera no Chile, sentenciou que “o império está em pleno contra-ataque. Pretende-se eliminar os governos de esquerda para colocar os lacaios do império ianque. Tenho fé nos líderes verdadeiros, homens e mulheres revolucionárias. A Venezuela é a vanguarda do movimento revolucionário e essa é a responsabilidade que temos”.

 

2. O grito esquálido não tardou em chegar frente a uma decisão soberana da Comissão Nacional de Telecomunicações (CONATEL) que se deu a conhecer no mesmo dia 23 de Janeiro. Se bem que nenhum dirigente da oposição respondeu ao repto do presidente para a convocatória de um referendo –única instância a nível mundial que permite a revogação popular de um chefe de Estado- o movimento estudantil de direita que tem como base de operações a Universidade Central da Venezuela levantou-se frente ao suposto encerramento da RCTV (não era o que já tinha sucedido em 2007, tal como estes meninos bem tinham anunciado ao mundo?). O argumento do encerramento é facilmente desmontável, tal como em 2007, quando se decidiu uma não renovação da licença por parte do Executivo frente às abertas provas de apoio desta emissora ao golpe de Estado de Abril de 2002. O que sucedeu há alguns dias foi simplesmente uma suspensão temporária de 6 canais de televisão: American Network, America TV, Momentum, RCTV, Ritmo Son e TV chile, os quais foram suspensos até cumprirem a legalidade vigente (por, entre outras coisas, não transmitirem alocuções oficiais -não somente as cadeias-, não difundir o Hino Nacional, não anunciar o tipo de produção, os elementos de linguagem, saúde, sexo e violência, difundir mais de duas horas de telenovelas em horário nobre [das 5:00 às 7:00 / das 19:00 às 23:00)], etc).

 

3. O problema da RCTV, no entanto, é outro. É a sua concepção ideológica e o seu alinhamento directo com aqueles sectores que foram afastados dos postos de poder pela Revolução Bolivariana. Daí que o canal de Marcel Granier sinta gosto em difundir outro empresário, Noel Álvarez de Fedecamaras, que não se atrapalha em reclamar uma “solução militar” para o problema chamado Hugo Chávez Frías. Este facto, que sucedeu no passado dia 21 de Janeiro, representa as reais intenções destes sectores e o perigo que representam a nível continental. Por isso, derrotados uma e outra vez na arena eleitoral, tentarão continuar a montar estratégias deste tipo para tratar de chegar a outro “Abril de 2002”.

 

Marcel Granier RCTV

Marcel Granier, da RCTV.

 

4. Foi precisamente nessa altura que o aliado incondicional da RCTV, a Human Rights Watch, publicou um comunicado que reconhecia a “autoridades de transição” e não considerava como concluído o Estado de direito. Isto é toda uma tomada de posição a respeito, semelhante à que tiveram George Bush e José Maria Aznar. Também não espanta o posicionamento da Human Rights Watch perante a Lei da Responsabilidade Social na Rádio e Televisão que data do ano 2003. Nessa altura, a HRW compartilhou a sua posição com uma organização vinculada com a CIA chamada “Repórteres Sem Fronteiras” para boicotar essa lei (que é precisamente a que agora determina a suspensão temporária das 6 emissoras). Também não surpreendem os nexos que unem o encarregado para a América Latina da HRW, José Miguel Vivanco, com a Fundação Konrad Adenauer, conhecida por um furioso anti-comunismo e por fazer base de operações contra Cuba a nível mundial (a tal ponto que o próprio Vivanco participou em actividades públicas com o veterano agente da CIA Frank Calzón, director do Cuban Freedom Center). Estes são os “bons rapazes” que agora nos pretendem vender o “encerramento” da RCTV por parte do “totalitário e tirano” Chávez.

 

Vivanco HRW

José Miguel Vivanco, da Human Rights Watch.

 

5. Resulta interessante concluir com uma apreciação sobre o momento político que se abre por causa do início da Campanha Admirável, ao qual se fazia referência no primeiro ponto deste artigo. Com uma oposição mediática desarticulada, e que expõe como ponta de lança um movimento universitário de “meninos bem” (que fazem greves de fome porque precisamente nunca tiveram de passar fome), abre-se um ano político que terá o seu nirvana com as eleições para a Assembleia Nacional de Setembro próximo. O desafio actual reside em desmantelar a bateria de mentiras que se são apresentadas (e as que serão) sobre a Revolução Bolivariana por causa da guerra de quarta geração que nos tratam de impor desde Washington. Trata-se de travar o contra-ataque imperial com a radicalização de um processo que é um farol a nível continental, e que tem em Setembro uma difícil contenda. Essa é a tarefa que na qual todos os que lutamos diariamente por esse outro mundo possível nos temos de empenhar, um mundo onde não cabem os Vivanco nem os Granier. Esperemos que este artigo tenha servido minimamente para esse fim.

 

 Texto de Juan Manuel Karg publicado a 1 de Fevereiro de 2010 na Rebelion.Org.

publicado por Alexandre Leite às 12:00
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