Quarta-feira, 19 de Maio de 2010

Venezuela outra vez ameaçada

Em Março de 2002, a cúpula empresarial do país publicou um anúncio na imprensa onde se lia: «Precisamos de unidade nacional para fazer um plano que reverta a tendência a excluir» (...) “... estamos de acordo com um Compromisso de solidariedade produtiva. Expressamente rejeitamos toda a forma de violência e alteração da ordem constitucional». Um mês depois, de mãos dadas com sindicalistas e militares telecomandados por Washington, dava um golpe de Estado que varreu com a Constituição aprovada em 1999, em referendo popular. Há pouco, talvez porque antecipa uma derrota nas legislativas de Setembro, essa cúpula empresarial publicou outro anúncio que nos devolve ao espírito fascista de 2002. Depois de exigir que o governo bolivariano assuma as responsabilidades pelo «processo destrutivo, económico, social e moral a que submeteu a Venezuela», afirma: «Reiteramos uma vez mais: é necessário que se convoque um Acordo Nacional para a prosperidade e erradicação da pobreza.»
Entretanto, sobem de tom os ataques contra os milhares de médicos cubanos que cumprem um papel fundamental na atenção médica à população mais pobre. Militares ligados ao regime anterior sussurram mensagens subversivas aos oficiais leais ao governo bolivariano. Outros acusam Hugo Chávez e o alto comando militar de traição à pátria pela presença de militares cubanos na condição de cooperantes.

Um oficial patrioteiro...

O general de brigada Antonio Rivero, recentemente despedido como director de Protecção Civil, vai mais longe. Solicita uma investigação sobre «delitos contra a independência e a segurança da nação». Entre esses «delitos», amplamente cacarejados nos média do país, estariam a introdução de consignas políticas entre os soldados, que Hugo Chávez vista a farda militar nalgumas ocasiões, mais muito especialmente a presença de instrutores militares cubanos.
Eleazar Días Rangel, próximo do governo chavista, é professor de jornalismo e director do Últimas Notícias – talvez o jornal venezuelano de maior circulação – que se esforça por manter um difícil equilíbrio político publicando notícias e artigos de opinião a favor e em contra do processo bolivariano.
A sua entrega mais recente como articulista refere-se precisamente ao «caso» general Rivero e a quatro situações em particular. 1) Um coronel cubano ditou, em Novembro de 2008, um curso de na Academia Militar sobre a «construção de túneis e de bunkers para as Forças Armadas». 2) Em Abril de 2009, comprovou que oficiais cubanos trabalhavam como assessores no Comando Estratégico Operacional. 3) Em Março deste ano foram-lhe apresentados oficiais cubanos que «realizavam uma avaliação de conjunto». 4) A 4 do mês passado não foi recebido pelo Comandante da Força Armada Nacional porque este «estava reunido com oficiais cubanos». Será que o patriotismo – ou patrioteirismo – deste oficial é assim tão forte que não tolera a presença de oficiais de outros países ou será que o que mexe com ele é que esses militares sejam cubanos?

.... e de «má» memória

É precisamente aqui que entra Diaz Rangel a pôr os pontinhos nos «is». O jornalista começa por levantar dúvidas sobre o facto de o general desconhecer vários antecedentes de apoio e cooperação de oficiais estrangeiros, situação que vem desde a guerra de Independência, iniciada há 200 anos. Com uma pedagogia irrepreensível lembra que, em 1941, chegou uma Missão Militar de Aviação, contratada na França, para que assessorasse «no ensino militar, naval e aeronáutico». Em 1946, segundo o Dicionário de História de Venezuela, as Forças Armadas «contaram com a assessoria de uma Missão Militar contratada nos Estados Unidos». Bastante antes, em 1936, «vários oficiais estrangeiros foram contratados pelo Ministério de Guerra e Marinha para servirem como instrutores». No ano de 1942, Washington «enviou (...) pessoal militar (...) para dar instrução teórica e prática de materiais de artilharia». Por último, o jornalista recorda ao «preocupado» general Rivero que, em 1996, sendo ele oficial superior, a Venezuela assinou com os Estados Unidos acordos «relacionados com o fornecimento de artigos de defesa, respectivo treino e outros serviços de defesa».
O general estava distraído porque nunca sentiu que estivesse em perigo a «segurança da nação»... nem mesmo quando havia uma Missão Militar de Washington no Forte Tiuna, o mais importante e simbólico do país.
A Venezuela está ameaçada... outra vez!

 

 

Texto de Pedro Campos publicado no jornal Avante! a 13 de Maio de 2010.

publicado por Alexandre Leite às 12:00
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