Quarta-feira, 14 de Julho de 2010

Poder Comunal em Caracas

Encontrámo-nos com Wilder Marcano, diretor da rede de Comunas em Caracas, na manhã de 18 de Junho de 2010. Ele falou connosco quando se preparava para se dirigir a uma multidão de algumas centenas de representantes de diferentes comunas de toda a capita venezuelana, que se reuniam nos gabinetes do Ministério do Poder Popular para as Comunas e Protecção Social para discutir uma série de assuntos relacionados com a construção do poder popular a partir de baixo, dos bairros pobres.

 

 

Qual é o papel das comunas na construção do socialismo na Venezuela?

 

Aqui na Venezuela temos um projecto político nacional para o país. Relativamente às organizações de poder popular nós temos os conselhos comunais, e a comuna é o principal órgão desse projecto político. Esse projecto tem de ter uma orientação estratégica, e no centro disto está a estimulação da participação das pessoas. Nós acreditamos que iniciar a construção da comuna é uma forma de realizar e concretizar o projecto político. A comuna é uma forma de organizar radicalmente o território, uma radicalização geográfica na qual os seres humanos são colocados no centro, onde se dão respostas às necessidades dos seres humanos, e na qual se pode construir uma forma distinta de economia. A nova economia necessita de substituir a economia capitalista que falhou, e a nova economia necessita de se basear nos princípios do socialismo.

 

 

Wilder Marcano em Caracas, Venezuela, 18 de Junho de 2010.

 

Quais são os desafios mais importantes enfrentados pelas comunas?

 

O maior desafio é que nós temos de quebrar a velha forma de fazer política aqui na Venezuela. Um exemplo é a necessidade de construir uma democracia participativa em vez de uma democracia representativa. Na Constituição Bolivariana é vincado que a democracia tem de ser participatória e ter uma papel de protagonista.

Isto significa que as pessoas têm de se libertar a elas mesmas dos seus medos e ansiedades e assumirem o seu papel na construção dessa nova realidade. Romper com a velha forma de fazer política, ter as pessoas como protagonistas é um dos maiores desafios que enfrentamos.

O segundo desafio tem a ver com o tema da economia, que é um assunto tremendamente importante. Nós temos de tornar as comunas em centros de produção para as pessoas, e temos de melhorar a sua organização. Porquê? Porque estamos a falar de romper com um sistema com centenas de anos de história, que deixou uma ideologia capitalista profundamente embrenhada nas pessoas. Essa ideologia tem muitos mecanismos de se reproduzir.

O nosso projecto socialista não é ainda completamente compreendido a nível das bases. Há ainda muita aprendizagem e educação a fazer. Isto é em parte um papel do PSUV, e é necessário de forma a construir uma nova economia com base nos valores do socialismo.

 

 

Qual é a vossa visão do socialismo a longo prazo?

 

No caso concreto da Venezuela, nós vemos o socialismo como um caminho de oportunidade. Se olharmos para o resto do mundo, se olharmos para as nossas próprias tragédias da história da Venezuela, torna-se claro que o sistema capitalista não funciona. Nós vemos o socialismo como uma forma de conseguir a nossa independência real e autêntica, que começou com Simón Bolivar. Olhamos para o socialismo como uma via para construirmos uma nova e distinta realidade para a Venezuela, na qual as necessidades dos seres humanos são colocadas no centro, onde as odiosas desigualdades do capitalismo sejam ultrapassadas, onde tenhamos uma verdadeira liberdade em todas as esferas da vida social, uma sociedade que não seja dominada por proprietários privados dos meios de produção e dos meios de comunicação.

Na essência, um país nos quais as crianças possam esperar uma vida enriquecedora, onde possam estudar, onde lhes seja garantida educação e saúde, onde tenham segurança, onda tenham a possibilidade de serem felizes e livres. É esta a visão que nós temos.

Podemos ver que há na realidade duas facetas importantes na luta popular neste país. A luta pelo controlo por parte dos trabalhadores, por um lado, e a luta pelo poder popular nas comunas, por outro lado. O que é preciso fazer para facilitar a união destas duas lutas?

Esta é a tarefa fundamental que o PSUV está a assumir no seu papel na luta pela libertação da sociedade na sua totalidade. O controlo operário tem a ver com o controlo e gestão dos meios de produção, com a tomada das empresas. A comuna tem a ver com o controlo territorial nas comunidades, com a produção nessas localidades, com o suprimento das necessidades das pessoas nos seus bairros. Os seus objectivos são praticamente os mesmos. Tem a ver com as pessoas assumirem o controlo de todos os aspectos das suas vidas. O partido PSUV é um mecanismo de unir esses objectivos, e parte destas bases tendo como visão a longo prazo a construção do socialismo.

 

 

Entrevista de Susan Spronk e Jeffery R. Webber feita a Wilder Marcano e publicado no Socialist Project a 4 de Julho de 2010. Tradução de Alexandre Leite para o Tirem as Mãos da Venezuela.

publicado por Alexandre Leite às 12:00
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