Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Dívida nos EUA torna-se insustentável

19 de Maio de 2009

A dívida americana é insustentável e os Estados Unidos não podem continuar na dependência da China e de outros credores, disse o presidente Barack Obama num dos mais dramáticos pronunciamentos de seu curto governo. Para muitos de seus concidadãos isso pode ser uma novidade. Ele mesmo jamais havia explorado o assunto de forma tão direta numa cerimônia pública. Em algum momento, disse ele, os credores ficarão cansados de bancar as despesas da maior economia do mundo. “Quando isso acontecer, vamos ter de aumentar os juros para conseguir financiamento e isso vai provocar aumento de juros para todo o mundo”, explicou o presidente.

O grave desajuste americano foi apontado por vários economistas há muito tempo, com advertências no mínimo tão sérias quanto aquelas apresentadas por Obama em seu discurso de quinta-feira na cidade de Rio Rancho, no Novo México. Stephen Roach, ex-economista-chefe do Morgan Stanley e atual diretor da filial do banco em Hong Kong, chamou a atenção várias vezes para os perigos associados ao desequilíbrio externo dos Estados Unidos. Outros analistas competentes, porém menos conhecidos, também discutiram o tema com insistência, por vários anos, mas tiveram pouca repercussão nos centros de poder, em Washington, especialmente durante o governo do presidente George W. Bush, irresponsável também em sua política fiscal..

O assunto ganhou destaque, na imprensa e nos meios políticos de Washington, quando o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, declarou em março estar preocupado com a qualidade dos papéis americanos. “Temos feito uma quantidade enorme de empréstimos aos Estados Unidos e, obviamente, nos preocupamos com a proteção dos nossos ativos. Sinceramente, estou um pouco apreensivo”, disse o primeiro-ministro. A China detinha em fevereiro, portanto pouco antes dessa declaração, títulos americanos avaliados em US$ 744 bilhões. O Japão também é um grande credor dos Estados Unidos, mas títulos do Tesouro americano estão entre os ativos de muitos países superavitários.

O que ocorrerá se alguns credores importantes, como os chineses, decidirem livrar-se desses papéis? Esta pergunta foi formulada várias vezes desde o início da década. A resposta é mais ou menos óbvia: os americanos sofrerão um aperto de crédito, o dólar será amplamente depreciado e os Estados Unidos terão de realizar um ajuste econômico muito severo, comparável àqueles enfrentados, em crises de insolvência, pelas economias pobres ou em desenvolvimento. Mas a hipótese de um grave aperto externo jamais foi tratada com muita seriedade em Washington.

Esse aparente desprezo pelo risco foi sempre sustentado numa crença otimista: o mundo nunca deixará de aceitar o dólar como reserva e meio preferencial de pagamento. Como essa crença tem sido até aqui confirmada, os americanos têm conseguido financiar tanto seu déficit fiscal quanto o desajuste de suas contas externas.

Por muitos anos o arranjo foi confortável para a China: os Estados Unidos importam enorme volume de produtos chineses e em troca recebem o financiamento para fechar suas contas.

Mas um desafio novo partiu de Pequim. É preciso, disseram neste ano autoridades chinesas, pensar numa nova moeda de reserva, mais confiável que o dólar. A ideia tornou-se um tema importante para muitos economistas nos últimos meses. Não se sabe qual poderia ser essa moeda. Por enquanto, não se pode pensar no yuan. A China teria de realizar reformas importantes, como a liberação das operações cambiais, antes de poder emitir uma moeda plenamente conversível e utilizável como reserva internacional, observou o economista Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York, em artigo publicado sexta-feira no Estado. A hipótese de uma moeda puramente escritural, como os direitos especiais de saque do Fundo Monetário Internacional, é sempre lembrada, mas não é exequível a curto prazo.

A substituição do dólar pode ser difícil, mas isso não torna menos grave o desajuste americano. O acerto dependerá de uma recuperação das contas públicas, já prometida pelo presidente Obama. Quanto mais cedo começar, melhor para todos. Se o ajuste for adiado e imposto por uma crise de confiança, o custo será desastroso para todo o mundo.

Fonte: O Estado de S. Paulo/Diário Vermelho

publicado por Rojo às 16:18
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2 comentários:
De Zé da Burra o Alentejano a 21 de Maio de 2009 às 14:38
A Globalização, tal como foi concebida, passará o ocidente para segundo plano, que será ultrapassado pelas as novas superpotências: a China, a Índia... O Ocidente caiu na armadilha da globalização que interessava às grandes Companhias, que pretendiam aproveitar-se dos baixos custos de produção no oriente. Todos sabem que o custo da mão de obra é insignificante para o estabelecimento do preço dos bens produzidos no oriente, pelos baixos salários e da inexistência de quaisquer obrigações sociais, havendo ainda trabalho infantil e até escravatura. Porque os bens produzidos se destinavam principalmente à exportação para o ocidente, e como o ocidente tem vindo a perder poder de compra, a crise ocidental acaba por tocar também as novas potências do oriente, porém, a crise nesses países é apenas um menor crescimento económico: há poucos anos era de dois dígitos e agora deverá ficar-se por 6 ou 7% ao ano e isso é muito diferente do crescimento negativo a que o ocidente está condenado e sem fim à vista.
Ao aderiram à "globalização selvagem", os países ocidentais e da União Europeia disseram que isso era inevitável (como se o mundo não tivesse existido antes), prometeram ao seus cidadãos que as suas economias se tornariam mais robustas e competitivas (não sei bem como?) e não condicionaram os novos países do oriente ao cumprimento de regras sociais e até ambientais para poderem exportar para o ocidente, tais como aceitar regras ambientais e laborais justas: melhores salários, menos horas e menos dias de trabalho, férias anuais pagas, assistência na infância, na saúde e na velhice. Não, o ocidente optou simplesmente por abrir as portas à importação sem condições, criando com isso uma concorrência desleal e “selvagem” de que sairá sempre a perder. A única alternativa seria nivelar os salários e os direitos sociais dos ocidentais pelos do oriente. É a esse drama que estamos a assistir neste momento. Senão para que servem as alterações às “Leis do Trabalho"? e as reduções das contribuições das Empresas para a Segurança Social? Como os países do Oriente não estão comprometidos com quaisquer metas de defesa ambiental e as suas tecnologias são altamente poluentes, o ocidente e a UE ditou a sua própria “sentença de morte”: enquanto algumas empresas não resistem à concorrência e fecham as portas para sempre, outras irão deslocar-se para a China ou para a Índia para assegurar a sua própria sobrevivência o que provocará desemprego e o definhar da economia ocidental.
A economia dos EUA vai também desmoronar-se e não demorará muito tempo que terá dificuldade em manter o poderio militar que tem tido, porque sem dinheiro não há como suportar as despesas.

De Rojo a 23 de Maio de 2009 às 01:11
Obrigado pelas tuas dissertações camarada Zé da Burra.

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