Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Lakhdar Boumediene: Desde a chegada de Obama nada mudou!

12 de Junio de 2009

 

 

O argelino Lakhdar Boumediene esteve detido arbitrariamente em Guantánamo durante sete anos e meio. Chegou a Paris no passado 15 de Maio, depois de França se ter convirtido no primeiro país da União Europeia (UE) a aceitar um ex-prisioneiro proveniente de essa prisão caribenha que não é residente nem cidadão francês.

Lakhdar Boumediene foi capturado na Bósnia-Herzegovina em finais de 2001 onde trabalhava para o Crescente Vermelho e foi acusado de cometer um atentado contra a Embaixada dos Estados Unidos em Sarajevo, junto a outros cinco argelinos. A justiça bósnia julgou esse chamado “grupo dos seis argelinos da Bósnia” e libertou-os. Mas, a pedido dos Estados Unidos, a policía bósnia entregou-os aos militares estado-unidenses, que os transportaram para Guantánamo.

Boumediene teve que esperar até 2 de Novembro de 2008 para que um juiz federal norte-americano o declarasse inocente e exigisse a sua libertação imediata, assim como a dos outros quatro argelinos da Bósnia (sic). Seis meses depois de essa decisão judicial, Boumediene foi libertado e transportado para França. Este é o seu testemunho, obtido pela RFI (Rádio França Internacional) num hotel da região parisiense, onde reside com as suas duas filhas e a sua mulher, que não tinha visto durante mais de sete anos.

Lakhdar Boumediene: Chamo-me Lakhdar Boumediene, sou casado, tenho duas filhas, Raja de 13 anos e Rahma de 9 anos. Em Guantánamo, chamavam-me “matrícula 10.005”. Era esse o meu nome, o meu apellido e a minha morada. Tudo. Desde 15 de Maio, data da minha chegada ao aeroporto militar em França, sou um homem livre. E agora sinto-me verdadeiramente um ser humano, da categoria dos homens livres, um homem no verdadeiro sentido da palavra, sobre tudo desde que voltei a encontrar os seres mais queridos que são a minha esposa e as minhas filhas, que não tinha visto desde há mais de sete anos.

RFI: Como reagiu quando por fim saiu do cárcere de Guantánamo?

L.B.: Imagine um homem, prisioneiro por mais de sete anos, que se encontra por fim livre, sem algemas nas mãos. Só comecei a sentir me livre no final da viagem que me trouxe de Guantánamo a França, porque as condições da viagem foram muito duras: tinha os pés atados e as mãos algemadas. Não pude comer, nem beber e o voo durou nove horas sem escala.

RFI: O que se passou à sua chegada a Guantánamo?

L.B.: Os três primeiros meses foram muito duros, estávamos encarcerados num campo chamado X-Ray, com muros de arame farpado e tecto de madeira. Cada um tinha dois baldes, um para lavar-se e outro para urinar e eram substituidos apenas uma vez por dia apesar da temperatura subir até 38 graus.

RFI : Você estava fisicamente muito débil quando aterrou perto de París a 15 de Maio…

L.B.: Eu tinha começado uma greve de fome em Guantánamo em Dezembro de 2006, o que durou até 15 de Maio de 2009. Quando cheguei ao aeroporto militar em França, depois de passar um momento com a minha mulher e as minhas filhas, levaram-me ao serviço de reanimação e de cuidados intensivos do Hospital de Percy onde permaneci durante dez dias. Ao chegar a Paris eu só pesava 56 quilos, enquanto que o meu peso antes da minha greve de fome era de 73 quilos.

RFI: Porque fez uma greve de fome?

L.B.: O que me levou a fazer uma greve de fome foram os maus tratos. Ao chegar a Guantánamo, eu lhes disse que era inocente. Os que me interrogavam me diziam: “O teu caso é um caso político, não és um terrorista”. E no entanto, os maus tratos tornavam-se cada vez mais duros, mais insuportáveis, sobretudo em 2006, depois da morte de três detidos. Então não tinha outra alternativa que fazer uma greve de fome. Não sei porque nos impunham esses maus tratos. Quando eu estava na Bósnia, haviam me acusado de preparar um atentado contra a Embaixada estado-unidense em Sarajevo. Mas depois da minha chegada a Guantánamo, nunca mais me fizeram perguntas a esse respeito. Então quando lhes dizia: “Porque não me peguntam nada acerca das acusações da Bósnia-Herzegovina?”, me respondiam “não os trouxemos aqui para isso”.

RFI: Quais eram as acusações?

L.B.: Faziam me duas perguntas. Uma era sobre o funcionamento das organizações de caridade, outra era sobre os árabes que viviam na Bósnia-Herzegovina.

RFI: Como se faziam os interrogatórios?

L.B: No total vi umas 70 pessoas encarregadas dos interrogatórios. De todas as cores, negros, asiáticos, europeus… Tive 120 sessões de interrogatórios. Antes de 2003, durante essas sessões que podiam durar cinco horas, podia expressar-me. Contei-lhes a minha vida, desde o meu nascimento até à minha chegada a Guantánamo e coisas sobre as pessoas que conheci na Bósnia. Depois, entre Fevreiro e Março de 2003, os interrogatórios tornaram-se muito violentos, foi o principio da tortura. Tudo se tornou muito doloroso, interrogavam-me desde a meia-noite até às 6 da manhã e desde a 13h00 da tarde até às 18h00. Para protestar contra essas torturas, comecei a minha greve de fome. Mas as sessões continuaram. Levavam-me ao hospital para dar me os tratamentos necessários e continuar a interrogar-me. Torturaram-me inclusivé quando eu estava muito débil: carregava-me um soldado de cada lado e faziam-me correr de propósito, mas como eu estava muito débil, os meus pés arrastavam-se e sangravam. Quando os soldados me levaram à minha cela, os meus pés, os meus tornozelos e os meus joelhos chocavam contra os degraus e sangravam. Mas isso não lhes preocupava. Ao sétimo dia, o médico me pediu que deixasse a minha greve de fome ou me iam alimentar à força. No dia seguinte, quando me levaram à clínica, os militares e o médico fizeram um gesto entre eles e injectaram me soro à força. Mas em vez de injectá-lo normalmente na veia, divirtiam-se cravando a agulha nos ossos e nos músculos do braço. Depois de 15 minutos com este jogo, entrou uma enfermeira e injectou-me soro na veia.

RFI: A atitude dos soldados endureceu-se por causa da sua greve de fome?

L.B.: Sim. Consideravam que, como fazia uma greve de fome, já não podia falar e para eles o mais importante era que lhes falasse. De tudo e de nada, mas que lhes falasse. A pova disso é que o mesmo médico voltou numa noite durante uma sessão de interrogatório, verificou os meus ouvidos, oa meus olhos, o meu pulso  e disse-lhes: “Está bem, podem continuar a interrogá-lo”. Depois de 16 dias deram-se conta de que não podiam obter mais nada, então deixaram-me. Pude ver os meus advogados pela primeira vez em Julho ou Agosto de 2004. Mas isso não teve nenhum impacto e os maus tratos contianuaram cada vez mais violentos.

RFI: As visitas do Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) mudaram algo?

L.B.: Eles vinham, mas não mudava absolutamente nada. Um simples soldado podia dizer à pessoa do CICV “tu sentas te ali e não falas”. Então a sua presença não mudava nada.

RFI: O que pensa dos estado-unidenses?

L.B.: O que eu quero agora é esquecer este pesadelo e viver em paz com a minh família. Em relação à administração estado-unidense responsável pelo meu encarceramento, o que é certo é que há un problema com quatro personagens loucos e estúpidos: George Bush, Dick Cheney, Donald Rumsfeld e o procurador-geral Alberto González.

RFI: Tem planos de move um processo?

L.B.: Sim, quero apresentar uma denúncia contra essas quatro pessoas, ainda que me leve mais de cem anos. Não sei se o conseguirei, mas vou tentar, com a ajuda dos meus advogados norte-americanos em Boston. Mas não confio na justiça dos Estados Unidos para logra-lo.

RFI: Quando o juiz federal ordenou a sua libertação em Novembro de 2008 recebeu um pedido de desculpas do governo dos Estados Unidos?

L.B.: As únicas desculpas que recebi foi porque me confiscaram todas as minhas coisas. Quando saí de Guantánamo não me devolveram nada: o meu passaporte argelino, a minha cédula de identidade argelina, roubaram-me o meu anel, o objeto que eu mais quería, os meus diplomas, os meus certificados… Essas foram as desculpas que recebí.

RFI: A situação mudou desde a chegada de Barack Obama à Casa Blanca e após ele assumir a sua intenção de encerrar o centro de Guantánamo?

L.B.: Nada mudou. É o mesmo general, é o mesmo almirante, são os mesmos soldados, os mesmos maus tratos dos prisioneiros, não se mudou nada!

Lakhdar Boumediene, a sua mulher e as suas duas filhas muito provavelmente se irão radicar em Niza no sul de França onde reside a família da sua cunhada. Quando obtiver os seus documentos de residência, Lakhdar Boumediene quer voltar a trabalhar no que fazia na Bósnia antes de ser preso: numa organização humanitária.

Entrevista: Véronique Gaymard
Tradução do árabe: Aïcha Saout de MC-Doualiya

Tradução do espanhol: Luís Rocha

 

Fonte: Radio YVKE Mundial

publicado por Rojo às 13:46
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1 comentário:
De mugabe a 19 de Junho de 2009 às 14:16

Os imperialistas norte-americanos são os verdadeiros terroristas..!!!

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