Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

A “expulsão” de Luis Herrero da Venezuela

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Por Juan Carlos Monedero

Não vale a pena dedicar-lhe muito tempo: em Espanha, uma declaração similar à de Luis Herrero teria lhe custado uma acusação por parte da Procuradoria Geral da República do Estado com o delito de, quanto menos, "expressões vexatórias, humillantes e atentatórias contra a dignidade e a honra" do chefe de Estado (Artigo 208, 490.3, 504 e 505 do Código Penal espanhol). Enfrentaria, além disso, a possibilidade de cumprir uma pena de cárcere que de três anos para cima.

Que um jornalista caracterizado por seu tom insolente, boçal e reaccionário faça na Venezuela o que não poderia fazer em Espanha, é um sinal mais de como a direita espanhola continua a considerar a independência da América Latina como uma afronta pessoal. A raiva profunda que mostram ante a recuperação da sua soberania e a defesa da sua dignidade não são senão o reverso dessa arrogância que pretende ditar desde o Norte os caminhos do Sul.

Respondam-se a uma simples pergunta: o que se teria passado em Espanha se um deputado de, suponhamos o Sinn Fein, tivesse vindo a Espanha convidado por algum grupo político abertzale (esquerda independentista basca) e tivesse afirmado que:

“É intolerável desde todos os pontos de vista democráticos e de defesa dos direitos humanos, que se possam provocar situações de amedrontamento, situações de violência, de ameaça, como as que eu pessoalmente tenho escutado"

Que teria ocorrido se um Deputado europeu, suponhamos que belga, francês ou italiano, tivesse vindo a Espanha, convidado como acompanhante eleitoral - com o que implica de reserva e não envolvimento - e tivesse vertido opiniões parciais sobre assuntos diretamente unidos à consulta eleitoral, por exemplo, a reforma constitucional que tem Espanha em sua agenda, além de pôr em qüestão o compromisso do Governo ou do Rei com os direitos humanos? Que teria ocorrido se tivéssemos tido que escutar esse deputado a afirmar:

“E portanto, quero que saibam que a delegação do Partido Popular Europeu, que se encontra aqui como convidada internacional para assistir a este processo eleitoral, de um referendo que (o Governo) já perdeu há um ano, não deixará em nenhum momento de denunciar publicamente em todas as instituições europeias um comportamento que considera profundamente lesivo para a dignidade do ser humano”.


Como teria reagido a tridentina rádio da Conferência Episcopal de onde procede o euro-deputado Herrero se um político convidado por qualquer partido tivesse declarado aos meios de comunicação durante o Governo de Aznar que: “Permitam-me dizer-lhe a todos os (espanhóis) que nos estejam a escutar, que não percam de vista que são cidadãos livres e que têm que votar em liberdade, que têm que votar o que queiram. Eu não estou dizendo que votem nem que sim nem que não. Estou dizendo que votem em liberdade, e que jamais votem deixando-se levar pelo medo que premeditadamente um ditador (o Rei de Espanha ou o Presidente do Governo) está a tratar de impor ao seu ânimo”.

Para terminar afirmando que a alargamento da hora para o fecho dos colégios eleitorais (num país onde o povo não tem assim tanta facilidade em ir até aos centros de votação), longe de ser um apoio à soberania popular e motivo de orgulho democrático se converte em "temor que possa ser utilizada essa 'noturnidade' (coisa obscura), ou digamos assim, para tratar de fazer algum tipo de manobra que não seja transparente e que não seja democrática”.

Evidentemente, nem o Governo nem o Parlamento nem os meios de comunicação teriam tolerado um estrangeiro que também não tolera as regras do jogo democrático nacional.

Mas sabemos que o que se tratava era de fazer ruído. Como sempre antes de umas eleições. Quiseram culpar a Chávez do assalto à sinagoga de Caracas por parte de supostos delinquentes (entre os que estava o escolta pessoal do rabino), quiseram culpar a Chávez da repressão a estudantes universitários publicando nas média fotos de cargas policiais nada menos que na Alemanha; quiseram culpar a Chávez de pretensões ditatoriais apresentando a ampliação de um direito que temos em 16 países europeus – que em qualquer cargo público se possa voltar a candidatar-se - como um passo mais na suposta perda de direitos democráticos na República Bolivariana de Venezuela.

A estratégia desqualificadora contra Venezuela cheira mal. E não é caso para meias tintas nem para justificações que valorizem comportamentos como os de Herrero. As empresas espanholas de meios de comunicação já começaram um novo pin-pan-pun contra a Venezuela defendendo uma conduta, a do euro-deputado, que é directamente desestabilizadora e que as democracias europeias não tolerariam. Comportamentos ensaiados que buscam, como já fizeram durante o golpe de Estado de Abril de 2002, derrubar a possibilidade em marcha de reinventar a democracia em nome dos sempre excluídos.

 

Fonte: agradecimentos à Embaixada da Venezuela em Espanha e ao Xico

publicado por Rojo às 01:39
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