Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Camilo Torres (1929-1966)

Foto do Padre Guerilheiro, Camilo Torres

Vida de Camilo Torres (Por Edgar Camilo Rueda Navarro)

 

Jorge Camilo Torres Restrepo nasceu em Bogotá a 3 de fevereiro de 1929. Seus pais foram Calixto Torres Umaña, médico de prestígio, e Isabel Restrepo Gaviria. De família rica, burguesa e liberal. Viveu junto com sua família na Europa, entre 1931 e 1934. Em 1937, o matrimônio se dissolveu e Camilo passou a viver com sua mãe e seu irmão Fernando.

Formou-se bacharel no Liceu Cervantes em 1946. Depois de estudar um semestre de Direito na Universidade Nacional da Colômbia, ingressou no Seminário Conciliar de Bogotá, onde permaneceu por sete anos, tempo durante o qual Camilo começou a se interessar pela realidade social, criando um círculo de estudos sociais, junto com seu companheiro Gustavo Pérez. Como cristão, sentiu-se atraído pelo tema da pobreza e da justiça social.

Camilo ordenou-se sacerdote em 1954 e logo viajou à Bélgica para estudar sociologia na Universidade de Lovaina. Durante sua estada na Europa, fez contato com a Democracia Cristã, com o movimento sindical cristão e com os grupos da resistência argelina em Paris, fatores que o levaram a aproximar-se da causa dos oprimidos. Fundou, com um grupo de estudantes colombianos da universidade, a ECISE (Equipe Colombiana de Investigação Sócio-Econômica).

Camilo Torres

Em 1958, formou-se sociólogo com o trabalho “Uma aproximação estatística à realidade sócio-econômica de Bogotá” (publicado em 1987 como “A proletarização de Bogotá”), que foi um dos pioneiros em sociologia urbana do país. Em 1959, regressou a Bogotá e foi nomeado capelão da Universidade Nacional. Ali, junto com Orlando Fals Borda, fundou a Faculdade de Sociologia em 1960, à qual esteve vinculado como professor.

Suas investigações sociológicas iniciadas com sua tese de formatura o levaram a familiarizar-se com as estruturas sociais tanto urbanas quanto rurais. Fundou o Movimento Universitário de Promoção Comunal (MUNIPROC) e desenvolveu trabalhos de investigação e de ação social em bairros populares e operários de Bogotá, como o bairro Tunjuelito. Como capelão, introduziu na Colômbia muitas das reformas do Concílio Vaticano II, como dizer a missa de frente e não de costas, e celebrá-la em espanhol em vez de latim. Apregoou que o problema não era rezar mais senão amar mais.

Em 1961, começou a ter problemas com o Cardeal Concha Córdoba, que não via com bons olhos os trabalhos de Camilo. A situação foi-se tornando espinhosa, até que o prelado o destituiu de seu cargo de capelão, dos trabalhos acadêmicos e das funções administrativas que ele tinha na Universidade Nacional.

Colaborou com a investigação dirigida por Germán Guzmán, publicada como “A violência na Colômbia” (1962, segundo tomo 1964). Em 1963, apresentou o ensaio “A violência e as mudanças sócio-culturais nas áreas rurais colombianas”, no primeiro Congresso Nacional de Sociologia. Fez parte do Instituto Colombiano para a Reforma Agrária (INCORA) e da Escola Superior de Administração Pública (ESAP). Pressionado pelo alto clero, em 1965 renunciou ao sacerdócio.

Esse ano, apresentou uma plataforma para um movimento de unidade popular, gestando, assim, a força política “Frente Unida do Povo”. Desenvolveu numerosas manifestações e atos públicos e publicou o semanário “Frente Unida”. Igualmente, fez contato com o Exército de Libertação Nacional, formado em 1964, com o qual acertou a continuação da agitação política nas cidades e seu posterior ingresso na organização quando fosse considerado necessário.

No segundo semestre de 1965, Camilo trabalha no impulsionamento da Frente Unida e na publicação do semanário do movimento (“Frente Unida”). Camilo encheu as praças públicas e teve uma vertiginosa ascensão política. Ratificou o abstencionismo como posição revolucionária.

Depois da fustigação e da perseguição estatal, vinculou-se em novembro ao ELN e lançou o “Proclama aos colombianos”. Em seu primeiro combate, em 15 de fevereiro de 1966, morreu lutando em Patiocemento, Santander. Seus restos mortais foram sepultados em algum lugar clandestino, desconhecido até o momento.

Pensamento político

Camilo fez parte de uma igreja contestatória internacional que se desenvolve na década de 1960, convertendo-se em uma de suas figuras principais. O cristianismo bem entendido supunha, para Camilo, a criação de uma sociedade justa e igualitária. Isto, ele traduziu como a obrigação de fazer uma profunda revolução, que despojasse do poder os ricos e exploradores (a oligarquia), para dar lugar a uma sociedade socialista.

Os principais enfoques de Camilo Torres podem ser sintetizados nas seguintes idéias a respeito da situação nacional: para transformar o país e conseguir o bem-estar da classe popular é necessário libertar o país do imperialismo norte-americano e da oligarquia que serve a seus interesses; é necessária a fusão, a mobilização e a vinculação dos setores pobres da população à luta pela construção de um novo Estado. Por isso, deve ser gerada a unidade do movimento revolucionário e opositor, aglutinando as massas oprimidas do país; deve-se ter a convicção de levar a luta até o final enfrentando todas as conseqüências; e, por último, os cristãos não somente têm a possibilidade de participar da revolução, como também têm a obrigação de fazê-lo (“o dever de todo cristão é ser revolucionário e o dever de todo revolucionário é fazer a revolução.”).

Camilo Torres na selva

Outro elemento fundamental no pensamento de Camilo foi constituído por seu esforço em conciliar o cristianismo com o marxismo, impulsionando um novo tipo de sociedade de caráter socialista e cristão, baseado na justa distribuição da riqueza. “Os marxistas lutam pela nova sociedade e nós, os cristãos, deveríamos estar lutando ao lado deles.”

Todo este processo deve ser desenvolvido, como enfoca Camilo, a partir da ação popular, combinando a atividade política com a militar e levando a cabo trabalhos políticos e organizativos a partir das bases, quer dizer, em estreita relação com o povo.

A formação do pensamento político de Camilo esteve marcada por várias etapas. Em primeiro lugar, teve uma formação cristã católica, mas sempre vinculado à realidade social e à situação de pobreza da população colombiana. Posteriormente, viajou à Europa, onde se formou sociólogo, mas onde também fez contato com o mundo socialista e com o movimento operário.

No seu regresso à Colômbia, Camilo planejou complementar seus esforços pelo bem-estar dos pobres com a atividade científica e investigativa, a partir de seus conhecimentos de sociologia. Neste sentido, desenvolveu projetos de ação social e comunitária nos quais pôs o conhecimento sociológico a serviço dos setores pobres.

Mas seus trabalhos foram truncados e entorpecidos pela burocracia governamental e pelo regime político, fator pelo qual Camilo passou a participar do campo político, opondo-se ao sistema da Frente Nacional (1958-1974) no qual os partidos tradicionais, o liberal e o conservador, repartiriam o poder milimetricamente entre si, excluindo os demais setores políticos. Com essa perspectiva, Camilo gestou e impulsionou a “Frente Unida do Povo”, na qual buscava aglutinar todas as forças políticas revolucionárias e de oposição, em torno da “Plataforma da Frente Unida”, que era constituída de dez pontos que faziam referência a: reforma agrária, reforma urbana, planejamento, política tributária, política monetária, nacionalizações, relações internacionais, saúde, família e forças armadas.

A incapacidade de conseguir mudanças autênticas e profundas por meios pacíficos e legais levou Camilo a pensar na necessidade da luta armada como meio para o estabelecimento de um novo estado e de uma nova sociedade, de caráter socialista. Por isso, vinculou-se ao ELN, onde esperava alcançar a realização da revolução na Colômbia, até que caiu morto em seu primeiro combate. *

Seu exemplo inspirou movimentos de setores cristãos como o grupo “Golconda”, ou o caso chileno de “Sacerdotes para o socialismo”, impulsor da ascensão de: Salvador Allende e personalidades como o padre Ernesto Cardenal, participante da rebelião sandinista na Nicarágua; e, em geral, as comunidades eclesiais de base, que formaram uma nova igreja latino-americana comprometida com a mudança revolucionária, dando origem à corrente conhecida como “teologia da libertação”.

Camilo Torres de batina

Igualmente, o exemplo de Camilo foi retomado por sacerdotes comprometidos que se vincularam à luta armada, como o caso dos espanhóis, Domingo Laín e Manuel Pérez, que morreriam combatendo com o ELN. (Pérez chegou a ser comandante político da organização, até que morreu de uma doença em 1998.).

Hoje em dia, seu exemplo se mantém na luta revolucionária que o Exército de Libertação Nacional mantém há 38 anos e seu pensamento perdura em estudantes, operários e camponeses de toda a Colômbia e a América Latina.

Síntese de sua atuação:

Como sacerdote, sua ação se vinculou de imediato aos setores mais pobres da sociedade. Seus estudos de sociologia o ajudaram a entender e sistematizar a situação política da Colômbia e do resto da América Latina.

O choque de sua atividade com as posições da alta hierarquia eclesiástica fazem-no abandonar a batina, mas não sua fé cristã e a religião.

Sua atuação política foi breve, mas criou a Frente Unida e dirigiu seu jornal. A partir dali, pregou a necessidade de unidade das forças populares, desmascarando o bipartidarismo e assinalando ser imprescindível dirigir os esforços na luta contra o imperialismo ianque e a oligarquia corrupta.

Síntese de seu pensamento:

O amor ao próximo é a fonte de inspiração da obra de Camilo Torres. Para alcançar a justiça e a igualdade que prega o cristianismo, é necessário terminar com os males que afligem os pobres e o povo em seu conjunto. É, então, que Camilo entende que, para transformar o país e conseguir o bem-estar da classe popular, é necessário libertar o país do imperialismo norte-americano e da oligarquia que lhe serve. Para enfrentar um inimigo tão poderoso, é inevitável a unidade do campo popular, rompendo o bipartidarismo e não renegando nenhum método de luta, inclusive a violência.

Camilo Torres defende a tese que entre marxistas e cristãos há mais pontos de coincidência do que de divergência e que hoje eles estão unidos pelos mesmos princípios de luta pela igualdade, a justiça social e o amor ao próximo.

O exemplo de constância, conduta, disciplina e ética elevam-no ao plano do revolucionário cabal e conseqüente.

Citações importantes:

Sobre os cristãos:

“O dever de todo cristão é ser revolucionário e o dever de todo revolucionário é fazer a revolução.”

“Depois da Revolução, nós, os cristãos, teremos a consciência de que estabelecemos um sistema que está orientado pelo amor ao próximo.”

 “Que não nos ponhamos a discutir se a alma é mortal ou é imortal, mas pensemos que a fome, sim, é mortal e derrotemos a fome para ter a capacidade e a possibilidade, depois, de discutir a mortalidade ou a imortalidade da alma.”

Sobre os marxistas:

 “Os marxistas lutam pela nova sociedade e nós, os cristãos, deveríamos estar lutando ao lado deles.”

“com os comunistas . . . estou disposto a lutar com eles por objetivos comuns: contra a oligarquia e o domínio dos Estados Unidos, para a tomada do poder por parte da classe popular.”

Sobre a Revolução:

“A Revolução, portanto, é a forma de conseguir um governo que dê de comer ao faminto, que vista o que está nu, que ensine o que não sabe, que cumpra as obras de caridade, de amor ao próximo, não somente de forma ocasional e transitória, não somente para uns poucos, mas sim para a maioria de nossos próximos.”

 “Necessitamos de algumas condições indispensáveis para fazer a união. A revolução é um ideal que se deve fixar de uma maneira determinada e precisa. Não nos podemos unir baseados em vagas ilusões . . .  uma das primeiras condições é conseguir que a classe popular tenha uma consciência comum . . .”

Sobre o imperialismo:

“Eu considero os Estados Unidos como inimigos do povo colombiano, não o povo dos Estados Unidos, mas sim seu sistema de grandes capitalistas norte-americanos. E por isso, como aconteceu por ocasião da independência da Colômbia, quando os latino-americanos tiveram que se unir para lutar contra a Espanha, da mesma forma, na época atual, nós temos que nos unir contra os Estados Unidos para lutarmos por nossa libertação.”

Transcendência histórica:

Camilo foi um dos primeiros que geraram a fusão do cristianismo, patriotismo e socialismo em um só bloco de pensamento e ação libertadora.

Inspirou setores como o grupo “Sacerdotes para o socialismo”, impulsionador da ascensão de Salvador Allende no Chile, os “padres villeros” da Argentina e personalidades como o padre Ernesto Cardenal, participante da rebelião sandinista na Nicarágua e, em geral, as comunidades eclesiásticas de base, que formaram uma nova igreja latino-americana comprometida com a mudança revolucionária, dando origem à corrente conhecida como “teologia da libertação”. Sua heróica morte o eleva como mártir e bandeira na luta pela libertação nacional e pelo socialismo. Como disse sua mãe: “Camilo nasceu quando o mataram.”

A obra e o exemplo de Camilo Torres são base para a discussão dos valores éticos na luta revolucionária e na formação dos homens e mulheres da nova sociedade.
 
Nota final: Tradução dos camaradas do Comité Bolivariano de São Paulo. No mês em que Camilo Torres faria 80 anos aqui fica mais um videoclip, em jeito de homenagem, de uma canção de Alí Primera, 'No Basta Rezar' (Não Basta Rezar), cuja letra Camilo Torres subscreveria concerteza.
 
No Basta Rezar - de Alí Primera
 
No, no, no Basta rezar
hacen falta muchas cosas
para conseguir la paz (Bis)

Y rezan de buena fe
y rezan de corazón
pero también reza el piloto
cuando monta en el avión
para ir a bombardear
a los niños del Vietnam
para ir a bombardear
a los niños del Vietnam

No, no, no Basta rezar
hacen falta muchas cosas
para conseguir la paz (Bis)

Nada se puede lograr
si no hay revolución
reza el rico, reza el amo
y te maltratan al peón
reza el rico, reza el amo
y te maltratan al peón

No, no, no Basta rezar
hacen falta muchas cosas
para conseguir la paz (Bis)

No, no, no Basta rezar
hacen falta muchas cosas
para conseguir la paz (Bis)

En el mundo no habrá paz
mientras haya explotación
del hombre por el hombre
y exista desigualdad
del hombre por el hombre
y exista desigualdad

No, no, no Basta rezar
hacen falta muchas cosas
para conseguir la paz (Bis)

Cuando el pueblo se levante
y que todo haga cambiar
ustedes dirán conmigo
no bastaba con rezar
ustedes dirán conmigo
no bastaba con rezar

No, no, no basta rezar
hacen falta muchas cosas
para conseguir la paz.

No, no, no basta rezar
No, no, no basta rezar

 

Fonte: Comité Bolivariano de São Paulo (Brasil)

publicado por Rojo às 10:42
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2 comentários:
De Mugabe a 20 de Fevereiro de 2009 às 19:17
Muito interessante. Já conhecia Camilo Torres, mas não a história toda. Obrigado!

Abraço!
De Rojo a 21 de Fevereiro de 2009 às 13:01
Obrigado camarada Mugabe, uma das coisas que este Blog vai fazer é dar a conhecer a História revolucionária da América Latina.

Iremos postar mais biografias (que podem ser encontradas na tag "libertadores").

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